O meu 1º “Camiño” (Caminho Central) – Vilarinho (Vila do Conde) – Santiago de Compostela. Setembro 2016

Se tiveres “a coragem” de ler até ao fim, poucas perguntas e duvidas terás, quanto a ir de Bike pela 1ª vez a Santiago de Compostela.

Aqui fica um resumo e fotos do que foi, para mim e para um colega, o nosso 1º “Camino”, as experiências e as etapas… Um “Camiño” feito praticamente sem  grande planeamento prévio.

Fica também um registo escrito para as pessoas que realmente tenham paciência e queiram saber os mitos e as verdades (pelo menos as nossas verdades) sobre o que é fazer este trajecto. O registo, tal como o “Caminho”, vai ser longo, e vai contar o que aconteceu na realidade!

Vamos lá….
Inicialmente éramos para ser 4 colegas a fazer o percurso, no entanto 2 deles, por motivos de alteração de agenda, acabaram por não nos poderem acompanhar.

Éramos agora 2, ambos sem nunca termos tido uma experiência a este nível. Delineei 3 etapas, atendendo à nossa condição física aceitável, comprei uma mochila por 19,99€ e lá fomos nós, antes porém, tinha ido no dia anterior ao albergue em V. Conde comprar os passaportes (1,50€/cada) os quais já traziam 1 carimbo. A menina que me atendeu colocou um 2º carimbo (o do albergue), mas ainda não tínhamos sequer iniciado o “Camiño”.

1º DIA:
Partimos de Mindelo (V. do Conde) no dia 23-09-2016 pelas 08:00h em direcção a Vilarinho (V. do Conde) onde activei o Strava, Km 0 (zero) para nós, se bem que já tínhamos feito 4 kms desde minha casa até esse ponto.
– Iniciada a pedalada e após a ponte Zameiro começamos logo a galgar subida com destino a S. Pedro de Rates.
O caminho é rural e agradável. 

Sem nunca pararmos (a não ser em S. Pedro de Rates para uma ou outra foto rápida) mantínhamos um ritmo médio constante em direcção a Barcelos.

Chegamos a Barcelos eram 10:25h com sensivelmente 31 kms. Lanchamos e aproveitamos para colher o nosso 1º carimbo no trajecto. Saímos de Barcelos em direcção a Ponte de Lima eram 10:40h. O caminho mantêm-se agradavelmente rural e com algumas subidinhas de tirar o fôlego. Tentamos manter o ritmo.
Chegamos a Ponte de Lima eram 13:25 com 68 kms feitos.

Almoçamos rapidamente ((para o 1º dia tínhamos levado umas sandes, umas barras de cereais normais e uns ISOSTAR em pastilha (embalagem de 10 – 5,50€) para adicionar à agua a fim de repor os sais minerais perdidos durante o percurso)) e abandonamos a cidade eram 13:55h em direcção a Rubiães (Paredes de Coura) onde iríamos ver se tínhamos lugar no albergue.

Cerca de 12 kms após termos saído de Ponte de Lima, deparamo-nos com a “temida” serra da Labruja, onde o caminho é pedregoso e sempre sempre a subir e a subir. A bike era levada à mão ou então carregada às costas, sendo que ás costas também levava a mochila com 9,100kg…
O Sérgio (este era o nome que estava na matrícula da sua bike) era um brasileiro de 62 anos com quem nos cruzamos e que também estava a fazer o caminho que só nos perguntava: “… cara ainda falta muito? daí de cima já se vê alguma coisa mais plana?…” nós respondíamos” Não! só subida mesmo”…. e ele retorquía: “caraca…!”
Força Sérgio…. 62 anos e já vinha desde Lisboa a fazer o “camino”….

De facto a serra da Labruja não é fácil, grande parte do tempo que demoramos nessa 1ª tarde foi precisamente a transpô-la e a beber água… sorte a nossa que as condições meteorológicas eram favoráveis, nem calor nem frio, nem sol nem chuva…. TOP!

82 Kms depois de termos saído de Vilarinho chegamos a Rubiães onde nos dirigimos ao albergue eram já 16:50h.
Na recepção começaram por nos informar que só tinham 2 camas disponíveis…. Ufffaaaaaa foi mesmo na quantidade certinha…. e por 5€/cada esperávamos tomar um bom banho e ter uma noite descansada.
Tivemos pena das 3 caminhantes que chegaram depois de nós, mas que se acomodaram num albergue mais acima se bem que pelo dobro do valor que nós pagamos.

Lá fomos nós conhecer as instalações, que pareciam novas e com muito boas condições (mesmo estando a falar de albergues), tudo limpinho, máquinas de lavar e secar (acho que eram 2€ para lavar e + 2€ para secar), nós levamos uma muda por dia, pelo que não fizemos uso disso, se bem que íamos mais pesados do que se optássemos por levar apenas 1 ou 2 mudas …

Bem!, fomos então tomar banho e preparar-nos para jantar num restaurante um pouco mais abaixo do albergue em que por 12€/pessoa, comemos sopa, grelhado misto em quantidade e qualidade (ou era a fome, não sei,…), e sobremesa.

Chegados à camarata éramos 28 pessoas de todas as cores e nacionalidades, mas até nem correu nada mal, se bem que eu mal preguei olho.

2º DIA:
Após tomarmos o pequeno almoço num cafézinho mesmo ao lado do albergue (1/2 leite + pão com manteiga + queque 3,90€) saímos de Rubiães eram 08:20h em direcção a Valença, caminho rural também com paisagens muito agradáveis mas claro que as subidinhas continuavam e alongavam-se…..
Em Valença, vinha ao nosso encontro um amigo (Pedro Ferreira) que nos deu o privilegio da sua companhia até Porriño e onde nos fez evitar a recta do “Poligono Industrial” levando-nos por um caminho alternativo que embora mais longo era bem mais bonito e interessante e sempre lado a lado com o rio.
Na subida onde viramos à esquerda, existiam setas amarelas tanto para a esquerda (por onde fomos) como em frente (a passar no Poligono Industrial)… sugiro que virem sempre à esquerda pois não vejo o interesse de passar pelo meio de uma zona industrial.

52,5 kms depois e eram já 13:00h, chegamos a Redondela onde almoçamos rapidamente e nos dirigimos para Pontevedra (eram 13:30h).

Bem! de facto a sinalização em Espanha, e contrariamente ao que dizem (que em Espanha é que está tudo bem marcadinho)… esqueçam….. !!! Uma vergonha, setas pequenas, gastas pelo sol, muito pouco visíveis e colocadas em locais inapropriados ou então no chão, o que obviamente tem um maior desgaste pelo sol e pela passagem de pessoas e veículos….
Têm uns azulejos com umas Vieiras nas paredes mas nem sempre isso acontece e raramente têm o X caso estejas no sentido errado, o que te leva a estar sempre bastante atento.
Felizmente durante todo o percurso apenas nos enganamos 1 vez e apenas por 20 ou 30 metros, nada de grave….
Outra vergonha, é o facto de não terem caminhos alternativos para quem vai de bicicleta, ou seja, muitas e muitas vezes tens de ir em contra-mão para poderes seguir o trajecto, o que para além de “estúpido” poderá trazer problemas ao ciclista em caso de acidente….!!! Muita atenção a isso.
A determinada altura, e antes de Pontevedra, estávamos num entroncamento numa indecisão quando apareceu um guia espanhol com um grupo de alemães, que nos sugeriu fazer um desvio à esquerda junto a um rio, seriam mais 1 km (total 4 kms) do que se fossemos em frente e no caminho original, mas que a paisagem seria muito mais agradável… e foi… o percurso era sempre junto ao rio muito bonito e sobretudo para quem vai de bike era fenomenal, single-traks muito bons e muita técnica, bem ao meu gosto… Top dos Topsss!! (para quem foi ao 1º passeio Troca Trilhos 2016, era parecido como o regresso que fizemos a Valença pela parte Espanhola).

Em Pontevedra paramos apenas para uma ou outra foto e “ala que se faz tarde” com rumo a Tivo (fica ai a uns 2 kms antes de Caldas de Reis) onde chegamos pelas 16:55h com 94,5 kms e com umas dores no “traseiro que nem era bom”…. As pernas também se ressentiam, mas era mais “pacífico”…

Encontramos então o albergue privado “Catro Canos” onde fomos super bem atendidos pelo Sr. José, o dono do albergue, que há uns anos atrás era motorista e fazia 2 viagens/semana à CLESA em V.N. Famalicão, ou seja, conhecia os hábitos dos Portugueses e percebia perfeitamente tudo o que lhe dizíamos.
Por 10€ ficamos num quarto onde só estamos 4 pessoas, se bem que o quarto era composto por 6 camas (4 deles em beliche).
Tomamos banho e fomos jantar à “tasquinha” do albergue.
De facto não têm refeições (pratos) mas podes comer Tapas ou Bocadillos (meia baguete com queijo e filetes de frango grelhado, presunto, queijos, etc… ) muito bem servidas e beber umas cidras de maça ou um vinho da região. Eu comi um bocadillo de queijo e frango grelhado, pimentos padron, 2 sidras e café + 1 água de litro e paguei 14€.

As conversas “manhosas” surgem em mesa comum e bancos corridos, devido a termos ao nosso lado 1 espanhola, 1 italiana, 3 australianas e 1 casal de mexicanos a tentar dialogar e a trocar experiências…. isso não se paga, isso não se explica, apenas se sente…. pessoas que fazem jornadas a pé que caminham sozinhas à dias, semanas ou meses…. nunca vais conseguir perceber o que sinto nem saber ao certo do que estou a falar se não viveres a experiência!

Coincidências, estava lá um caminhante Português de Aveiro, o Sr. Carlos Rios (carlos.rioslobo@gmail.com) que percorre a Europa há já 13 anos e só muito pontualmente vai a casa.
Um senhor super simpático com um conhecimento geral muito acima da média, talvez porque percorra muitos e muitos kms a pé e conheça muita e muita gente de toda a parte do mundo.
Aprecio a sua coragem para tomar este estilo de vida.
As suas mãos são enrugadas e transmitem trabalho, sim porque ele estava lá a trabalhar na vindima para conseguir mais algum “guito” para poder continuar a sua jornada por um qualquer caminho…

Esta noite já consegui dormir melhor, não fosse o carregador de baterias da italiana ter explodido 2 vezes durante a noite e ela ter dado um valente berro…. mas acabei por adormecer novamente.

3º Dia (1/2 dia):
Após tomarmos o pequeno almoço na “tasquinha” do albergue, (tomei uma 1/2 de leite + 1/2 baguete + 1 croissant com queijo e paguei 4€) tiramos uma foto conjunta, eu, o Nelson (o meu colega de jornada), o José (o dono do albergue), e o Sr. Carlos (o “barbudo” lá de trás na foto), partimos eram 8:25h em direcção a Pádron. Só 2 kms à frente é que liguei o Strava.

Aqui a paisagem já começa a ser novamente mais bonita já que desde que entramos em Espanha existe quase 50% de caminho em zona Urbana, enquanto que em Portugal é maioritariamente zona rural.

A zona de ” O Pino” é também fenomenal, sobretudo pela paisagem e pelas descidas alucinantes… se bem que todos sabemos que depois de uma descida….. uma subida aparecerá… e aqui eram sempre das pesadas…. 🙁

Passamos Padron, mas já antes é necessário ter cuidado pois muitas vezes tens de cruzar a Nacional o que é perigoso por isso atenção. 

Ás 12:30h e 47 kms depois (estou a meter os 2 que me faltavam pois tinha-me esquecido de ligar o Strava) chegamos a Santiago de Compostela… ufffaaaa que jornada!!
A foto da praxe e tal e ao pegar na bike para subir uma das escadarias, a bike parecia que pesava uns 20 kg, eu tentava não pensar, pois tinha a ideia que até um pensamento me faria peso…. mas valeu a pena. Foi uma experiência única.

Preparar o regresso ao Porto:
Estando na praça central e de costas para o Santuário vais sobre a tua direita ao fundo onde desces umas escadas ao lado da praça e encontras o posto de turismo e o apoio ao peregrino.

Fomos inicialmente ao Posto de Turismo onde tem os CTT, a ALSA (camionetas) e um balcão do comboio que só abria as 15:30h.
Optamos por vir de camioneta já que haviam poucos lugares disponíveis e no comboio não era certo que nos deixassem levar as bikes.
Pagamos 33€/passageiro + 15€/bike, o que totaliza 48€.
Por azar o PC da Alsa estava com problemas o que me obrigou a ir de bike fazer mais uns 2 kms para cada lado para ir à central de camionagem levantar os bilhetes e regressar para a beira do Nelson que entretanto ficou no posto de apoio ao peregrino para obter a Compostela (Grátis) NOTA: Se quiseres um certificado com os kms que fizeste, o ponto de partida, etc… pagas 3€.

Quando chegamos ao posto de apoio ao peregrino (tipo 13:30), estavam no mínimo ai umas 150 pessoas para obter a Compostela sendo que quando viemos embora (sem a Compostela) ainda devíamos ter umas 50 pessoas à nossa frente, ou seja, uma pouca vergonha…. como é possível que isto aconteça? ter só 1 pessoa ou 2 para fazer o atendimento de tanta gente!!!! fora as pessoas que se fartavam e acabavam por desistir (nós desistimos porque já eram 16:15h e a nossa camioneta saia para o Porto ás 17h, nem tempo tivemos para almoçar).

Para ir para a central de camionagem, sais literalmente do posto de apoio ao peregrino e viras à esquerda e fazes aqueles 15 ou 20 metros até ao fundo da rua. Ai viras à direita numa rua a subir onde andarás mais 2 kms e encontrarás a Repsol e o MC Donalds e mais à frente a central de camionagem.
Por norma as bikes têm de vir embaladas naquele plástico de bolhinhas, no entanto como nem tempo tivemos e o motorista era Português facilitou-nos um pouco a vida, não levantando problemas. 

A viagem até ao Aeroporto do Porto demorou 3,30h e correu sem incidentes.
A Alsa pára nos seguintes locais: Santiago de Compostela – Valença – Braga – Aeroporto do Porto – Casa da Música.

Em resumo, e em minha opinião, para fazer o caminho:

1) Tenham uma condição física aceitável.
2) Planeiem o caminho.
3) Não façam o caminho sozinhos, pois apesar de haver sempre gente, pode ocorrer algum problema e não terem quem os ajude.
4) Façam o caminho entre Março e Junho ou entre Setembro e Novembro pois não há tanto calor e possivelmente os albergues estão mais vagos.
5) Comprem o passaporte e obtenham no mínimo 2 carimbos por dia, a Compostela só será dada a quem fizer um mínimo de 100 kms a pé ou 200 de bike.
6) Se optarem ficar em albergues tenham sempre a consciência que vão dormir mais mal, pois tem montes de gente no mesmo quarto (sobretudo se for um albergue publico), e que devem levar, para além de champô, gel de banho e pasta dos dentes, o saco cama ou como eu fiz, um lençol de cama de casal, já que lá só tem o colchão….

Bon Camiño!
Miguel Gomes

Troca Trilhos

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